"Map 42: The Synergistic Mind: Buckminster Fuller, Ruth Benedict and Abraham Maslow," de Maps of the Mind (1982), de Charles Hampden-Turner

Atualizações e Cognição

Mais ou menos no decorrer dos últimos três anos, comecei a entrar em contato com conteúdos (livros, textos, filmes, vídeos, etc.) que, ainda que tratando de assuntos (aparentemente) não relacionados, pouco a pouco contribuíram para que eu desenvolvesse minhas ideias, crenças, posições e percepção do mundo e dos humanos que o habitam. Inicialmente, li uma introdução básica, acessível (mas muito boa) a filosofia política, com Justiça, de Michael Sandel. Depois, com A Ideia de Justiça, de Amartya Sen e diversas outras fontes,1 pude entender melhor o que está envolvido quando falamos em “justiça,” “igualdade,” “equidade,” e outras ideias tão caras a nós, mas que frequentemente usamos sem refletir mais profundamente – o que dá origem a intermináveis discussões políticas improdutivas: a falta de base teórica ou filosófica não impede conversas frutíferas, mas as dificulta tremendamente.

Ao mesmo tempo, fui descobrindo (também graças a Heloisa Bianquini e Vinicius Seneda) um pouco mais sobre psicologia, filosofia, antropologia e sociologia. Longe de tomá-las como disciplinas isoladas, contudo, passei a enxergar como cada uma delas contribuía, de forma complementar, para uma compreensão mais robusta e completa da realidade.2

Com a psicologia, aprendi sobre como o comportamento humano é muito menos ‘racional’ do que parece, e tive os primeiros vislumbres sobre como o desenvolvimento cognitivo/mental acontece nos seres humanos (e outros animais). Bem próximo a ela, o que (ainda pouco) tenho lido sobre ciências biológicas como um todo, em especial as neurociências e farmacologia, com implicações diretas para a forma que concebemos a origem de nossas vontades, pensamentos, valores e julgamentos, e a nossa própria ideia de consciência e identidade pessoal.

Ler (e assistir) sobre antropologia me permitiu sobretudo entender a extensão do que é relativo. Descobrir como seres humanos podem ser diferentes em seus rituais, crenças, modos de se apresentar, se portar, se relacionar, de pensar, de conceber o mundo e seu papel nele de formas tão radicalmente diferentes da Ocidental, contemporânea, “civilizada” e “capitalista;” descobrir, em suma, que existem outras formas de existir tão diversas que muitos de nós, quando confrontados com elas, como um tipo de instinto de auto-preservação identitária, negamos a elas o mesmo tipo de status que damos a nós mesmos, qual seja, de racionais, mais inteligentes, mais livres. Nada mais infundado: conhecer o outro e reconhecer nossas diferenças com ele é, também, conhecer a si próprio. É notar como nós, também, fomos ‘formados’3 pelo ambiente ao nosso redor desde o nosso nascimento, de nosso idioma nativo até nossos costumes, valores morais e obediência (ou não) a eles. De fato, nossa noção de consciência é formada através da interação coletiva com outros seres humanos.

O que me leva à linguística, sobretudo a variedade cognitiva: a forma que raciocinamos é movida, ou justificada, em geral, usando palavras, por meio da comunicação com outras pessoas. A forma que organizamos nossos pensamentos e criamos categorias dentro das quais encaixamos tudo ao nosso redor (e sua variedade cultural) são algumas das coisas que mais me atraem aqui, e que são inseparáveis das outras disciplinas de que falo aqui – e que, cada uma a sua parte, servem como lembrança constante de que nós preexistimos as palavras que usamos para descrever nossa experiência.

É claro, não é possível diminuir a relevância da filosofia nesse assunto, sobretudo o que hoje chamam de filosofia da mente. Da tradição budista aos gregos, e desses até a tradição moderna e contemporânea, com a virada de Descartes, a filosofia de todo lugar e época se ocupou de entender como funciona nosso pensamento. Em especial, tenho me interessado por filósofos mais recentes, como Putnam, Nagel ou Rorty, e suas contribuições às noções de objetividade/subjetividade, ligadas diretamente à forma que percebemos e fazemos sentido do mundo e, portanto, ligadas à ciência cognitiva em geral. Mas a filosofia perpassa e habita praticamente todas essas outras áreas, não há como tratar da mente sem que se trate dos mesmos assuntos que a filosofia chama de ‘ontologia’ ou ‘epistemologia,’ por exemplo.

Não foi até alguns meses atrás, no entanto, após ler The Tree of Knowledge,4 dos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana, e descobrindo então que um dos temas unificadores de todas essas disciplinas5 é o que se costuma chamar de ciência cognitiva.

É a convergência dessas e outras áreas em busca da compreensão da cognição (humana e diversas outras) que tem sido meu objeto de atenção nos últimos tempos. Sobretudo, me interessam as implicações dos achados e teorias desenvolvidas nesses campos sobre áreas como as relações humanas, o processo de aprendizagem (e logo a educação), a organização e interações sociais, e até a exploração direta da consciência e da mente. Do ponto de vista acadêmico, até mesmo por estar inserido em uma graduação em Direito, as consequências políticas e morais desses assuntos me atraem particularmente. Por exemplo, as noções tradicionais de livre-arbítrio6, identidade, vontade, altruísmo/egoísmo, individualidade, natural/construído, biológico/social, igualdade/diferença e outras, que tomamos muitas vezes como óbvias e dadas, são profundamente questionadas (senão, destruídas e tornadas sem sentido) quando aprendemos mais sobre o que somos.

"Um gráfico conceitual das ciências cognitivas hoje [em 1992] na forma de um mapa polar, com as disciplinas contribuintes nas dimensões angulares e diferentes abordagens no eixo radial." Figura de The Embodied Mind (1992), de Francisco Varela, Eleanor Rosch e Evan Thompson.

“Um gráfico conceitual das ciências cognitivas hoje [em 1992] na forma de um mapa polar, com as disciplinas contribuintes nas dimensões angulares e diferentes abordagens no eixo radial.” Figura de The Embodied Mind (1992), de Francisco Varela, Eleanor Rosch e Evan Thompson, p. 7.

No mapa acima, é possível visualizar as três “ondas” da ciência cognitiva ao longo do tempo, do cognitivismo, com foco na ideia de cognição enquanto interpretação de informações e resolução de tarefas; o pensamento emergente (ligado ao conexionismo), que focava na cognição enquanto fenômeno emergente; e o enactivismo, voltado à forma que a cognição (e nossa percepção de mundo) surge a partir da interação contínua entre organismo e ambiente. O cenário real do campo é mais complexo que isso, é claro, mas é uma divisão útil para se ter em mente.

Da outra metade desse assunto, o pensamento sistêmico, pretendo falar em outra ocasião.

Em alguns parágrafos, é isso que tem me movido nos últimos meses, e é no que pretendo focar meus esforços e estudos no futuro. Com isto em mente, tenho aumentado meu ritmo de leitura consideravelmente e, porque é um bom hábito, tenho mantido registros das minhas impressões dos livros que leio para consulta posterior, e publicando-as na rede social de literatura Goodreads. E porque parece uma boa chance de me forçar a publicar mais coisas por aqui e, quem sabe, aumentar o interesse de outras pessoas por esses assuntos que, francamente, têm mudado minha vida, decidi passar a re-publicá-las aqui, traduzidas em português. Este mesmo post era para ter sido a primeira dessas, mas a introdução que decidi escrever para contextualizar a tradução ficou, como é possível ver, um pouco longa.

Além disso, tenho mantido uma lista de livros relacionados (segundo um critério de interesse pessoal) aqui, e uma lista de (excelentes) vídeos ligados a isso tudo aqui.

Nos próximos dias, volto com a primeira “review”: Vehicles, de Valentino Braitenberg, um livro sobre “experimentos em psicologia sintética.”

Até breve!

 

  • Foto de capa: “Map 42: The Synergistic Mind: Buckminster Fuller, Ruth Benedict and Abraham Maslow,” de Maps of the Mind (1982), de Charles Hampden-Turner.

 

Alguém que gosta de estudar coisas.

grite (baixo!)