I ♥ Paraisópolis

Mapa de Distribuição Racial do Brasil

tl;dr: mapa de pontos de segregação racial: 1 ponto = 1 pessoa – clique aqui para ver :)

Mapas são incríveis. Eles nos permitem realizar análises e chegar a conclusões que se baseariam, de outra maneira, em puro achismo. Mas muitos mapas, até pelo modo como os dados que os alimentam são coletados, frequentemente são bastante pouco elucidativos, resultando em visualizações desinteressantes e óbvias – e muitas vezes, isso tem a ver com as divisões geográficas escolhidas: os estados brasileiros são enormes, por exemplo, e utilizá-los como unidade geográfica mínima é frequentemente uma má ideia.

Foi com isso em mente, e após ter contato com o incrível Racial Dotmap do Cooper Center da University of Virginia (e suas variações, o Congressional Dotmap e o UK ethnicity dotmap), e com o subsídio do que havia aprendido na incrível disciplina de férias que fiz com o pessoal da Administração Pública da FGV (com o longo nome de “Inteligência Geográfica para Gestão Territorial e Governo Aberto“, que resolvi replicar o mapa com dados do território brasileiro.

Colorful New York

Colorful New York

Nesse tipo de mapa, a ideia é que cada ponto represente uma pessoa, sem nenhum agrupamento – além disso, a cor de cada ponto representa a raça da pessoa (no nosso caso, com base em sua autodeclaração para o IBGE durante o censo). Na versão americana, esse mapa dá um panorama assustador da segregação geográfico-racial: é possível visualizar a que “raça” cada borough novaiorquino corresponde, bem como observar como brancos muitas vezes ocupam os subúrbios das cidades – com mais espaço, e menor densidade demográfica.

Junto do web developer e comunicador Apolinário e do programador Tiago Gama, comecei o processo de replicar o mapa para o Brasil, descrito em detalhes aqui. Terminado, contamos com mais de 26 milhões de arquivos de imagem, totalizando cerca de 30GB. O resultado é um mapa que nos permite visualizar padrões na distribuição racial de quase todos os municípios, que mostra que a segregação é muito mais complexa que o velho chavão de “centro rico, periferia pobre” (isto se for feita a simplificação também grosseira de “branco rico, preto pobre”), algo já sugerido pela Dra. Maria Loffredo D’Ottaviano, em doutorado na FAUUSP.

Entretanto, pré-concepções são tão negadas quanto explicitadas. Há baixíssima presença de pessoas que se autodeclaram como pretas na periferia da região metropolitana de São Paulo: a maioria define-se como “parda”. Isso é notavelmente alterado se você olhar para algumas favelas paulistanas, em que há consideravelmente mais pretos que a média – sugerindo uma de duas coisas: ou ocorre um apagamento do “ser preto” na autodeclaração (em que pretos se autodeclarariam pardos, e estes se autodeclarariam brancos – meio como o Ronaldinho), ou realmente há apenas uma concentração maior de pessoas pretas em favelas – ou ambos, em certa medida.

I ♥ Paraisópolis

I ♥ Paraisópolis

Análises e conclusões como essas, entretanto, deixo para quem quiser desenvolvê-las: o mapa racial é completamente aberto – não apenas o código que o gerou, mas o mapa em si, optamos por lançá-lo sob a licença Creative Commons Atribuição, o que significa que você pode fazer o uso que quiser do mapa, mas pedimos apenas que você adicione os devidos créditos :)

Você pode acessar o mapa ao vivo clicando aqui!

Pata – análise e visualização de dados

O lançamento desse mapa é também o lançamento da pata – a agência de análise e visualização de dados que eu, Apolinário e Tiago Gama fundamos para consolidar nossos projetos envolvendo big data, gráficos, mapas e, quem sabe um dia, machine learning – e estamos também abertos para desenvolver projetos para você :D

Alguém que gosta de estudar coisas.

  4 comments for “Mapa de Distribuição Racial do Brasil

  1. henrique
    08.12.15 at 19.22

    As cores para pardos, negros e indígenas são confusas para daltônicos :(

    • 12.12.15 at 16.07

      Oi, Henrique!

      Então, estamos cientes disso, e estamos considerando gerar algumas visualizações seguras pra daltônicos!

      Obrigado pela mensagem :)

  2. 06.01.16 at 09.22

    Cara, muito bom. Belíssimo trabalho. Sugestão, por default deixar habilitado no mapa os rótulos dos mapas, saber que existe é melhor que procurar como mostrar. E se possível deixar como um botão, como feito a metodologia que está escondido lá embaixo no menu inferior. Pra quem está interessado nesse mapa e cai de paraquedas é essencial pra entender melhor o mapa ler essa página antes. São só sugestões ;) parabéns excelente trabalho. abs

    • 06.01.16 at 17.30

      Muito obrigado! Agradecemos pelas sugestões, também :D

grite (baixo!)