Vehicles (ilustração da p. 93)

Li em algum lugar: Vehicles – Experiments in Synthetic Psychology

Essa é a primeira tradução que faço de uma das minhas ‘análises’ (na verdade, anotações pra o meu eu futuro se lembrar das reações do meu eu passado) de livros que tenho lido relacionados às minhas investigações acadêmicas1 em ciência cognitiva, pensamento sistêmico, filosofia e outras coisas.

O livro em questão é Vehicles: Experiments in Synthetic Psychology, publicado em 1984 pelo neurocientista italiano Valentino Braitenberg.


Como é que comportamentos complexos, como aqueles observados em vertebrados e, é claro, humanos, podem surgir a partir de elementos inanimados “simples” como elétrons, átomos, moléculas ou células? Como a evolução deu origem à consciência? Essas são (pra mim) algumas das perguntas mais intrigantes e interessantes que as ciências cognitivas, de Gödel, Escher, Bach a The Tree of Knowledge,2 tentam responder.

A abordagem de Braitenberg a essa questão consiste em imaginar o que ele chama de “veículos,”3 inicialmente objetos simples formados por sensores (para leitura de luz, substâncias químicas, etc.) conectados a motores que o fazem se mover rápido ou devagar, em direção a ou para longe de alguma coisa. Despretensiosamente, ele começa a mostrar como mudanças relativamente simples na fiação interna de tais veículos leva a comportamentos imprevisíveis, complexos e até “humanos.” Por exemplo, um sensor de luz (localizado do lado direito do veículo), se conectado ao motor esquerdo faz seu lado esquerdo “andar mais rápido” (e vice-versa), então atraindo o veículo para a luz. Um observador ingênuo poderia concluir que esse veículo “gosta” de luz. Mas o que significa dizer que um objeto (ainda mais um claramente “inanimado”) “gosta” de algo?

 

Comportamento de "atração" ou "repulsão" devido às ligações internas do veículo. Figura retirada do livro (p. 8).

Comportamento de “atração” ou “repulsão” devido às ligações internas do veículo. Figura retirada do livro (p. 8).

Um conceito-chave aqui é a distinção entre uma abordagem top-down e uma bottom-up para a compreensão de comportamento animal/complexo. É bastante mais difícil, diz Braitenberg, entender o que se passa por trás do comportamento aparente de um animal através de observações do comportamento (ou seja, por indução) do que, e esta é a proposta do livro todo, deduzir seu funcionamento (ou comportamento) a partir de seu mecanismo interno mais simples, brincando com sua estrutura, observando como mudanças nela afetam seu comportamento externo.

Eventualmente, Valentino introduz o conceito de evolução Darwiniana a seus veículos, o que inevitavelmente traz à mente os algoritmos genéticos contemporâneos. A segunda parte do livro é dedicada a uma comparação biológica dos veículos com organismos reais, em que ele aplica ideias introduzidas na parte anterior e mostra de onde Valentino tirou suas ideias. A estrutura neurológica complexa vista em animais, ele demonstra, surge a partir de aprendizado, de input sensorial e, eventualmente, de “pensamentos” internos (ou ativações neuronais). Esta segunda parte é um tanto mais pesada na biologia, mas razoavelmente compreensível para um leigo como eu.

A consciência (sugere ele, implicitamente), então, surge não a partir de um “Deus” inexplicável e misterioso4, não de magia, mas de necessidade biológica – de mudanças em ligações neuronais.

Afinal, como mais poderia ser?

Alguém que gosta de estudar coisas.

grite (baixo!)